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No Dia do Voluntariado, duas histórias de dedicação ao próximo


Repórter Diário
Sucena Resk
28/08/2006 

Hoje é mais um dia como tantos outros do ano, só que com um detalhe a mais. É a data em que se comemora o Dia Nacional do Voluntariado. Para não deixar a data passar em branco, a reportagem do Repórter Diário encontrou duas personagens de carne e osso do Grande ABC, que doam algumas horas de seu dia-a-dia para fazer bem ao próximo. Elas representam os milhares de anônimos espalhados pelo país, que acreditam que quem quer se dedicar a um ato solidário, encontra tempo na agenda tumultuada dos centros urbanos. 

As protagonistas de hoje são a cabeleireira pernambucana Maria do Carmo Vanderlei de Souza, 59 anos, mais conhecida por Lia, de São Caetano; e a auxiliar de limpeza aposentada, a alagoana Genilda Maria da Silva, 55 anos, que vive em Santo André. Em comum, elas dão o seguinte conselho aos marinheiros de primeira viagem. “O voluntariado pode começar em qualquer idade”.

No caso de Lia, a sua jornada foi iniciada quando era criança. A cabeleireira conta que a infância pobre em Pernambuco fez com que aflorasse a sua vontade de ajudar o próximo. “Aos 12 anos, já ajudava a cuidar de meus 7 irmãos menores. Passamos um sufoco muito grande e muita gente nos ajudou, nessa época, quando chegamos a ficar sem comida. Não me esqueço dessas atitudes, e pus em minha cabeça, que um dia eu iria pagar por isso”, diz a moradora de São Caetano e presidente da Sociedade Amigos do Bairro São José.

Os anos se passaram e a menina tornou-se precocemente adulta ao começar a trabalhar para a ajudar a mãe a cuidar dos irmãos. “Meu pai tinha ido embora de casa”, afirma. Quando se transformou em uma jovem de 18 anos, mais uma vez, o apelo do coração falou mais alto. “Incentivei a minha família a adotar mais duas crianças que conheci, que também ajudei a cuidar”, diz com uma ponta de orgulho. “São meus irmãos”.

Nada de braços cruzados
Segundo Lia, o dia-a-dia foi provando para ela, que ficar de braços cruzados diante de situações de injustiça e carência era impossível, e que o voluntariado deve ser compartilhado, ao contrário de uma jornada-solo. 

A partir da década de 1970, quando estava casada e já morava em São Caetano, a jornada de dona-de-casa e mãe não era suficiente para preencher sua vida. “Daí comecei a organizar festas juninas e quermesses para angariar fundos para famílias mais carentes do bairro”, conta. 

Depois as suas preocupações se dirigiram a providenciar alimentos e remédios para vítimas de enchentes, que eram recorrentes no bairro São José. Mas nada de querer abraçar tudo sozinha, então, encontrou companheiros com a mesma afinidade. “Nós íamos de porta em porta entregar os donativos”, conta ela. 

As enchentes diminuíram, mas a vontade de ajudar, não, segundo ela. “Se as pessoas batem à minha porta, tento dar atenção. Se for preciso, levo a pessoa para o hospital e encaminho ao assistente social. Brigo mesmo pelo direito ao bom atendimento à saúde. Não posso ver injustiça”, afirma Lia, que tem como confidentes em seu altar particular, os seus santos de devoção, Nossa Senhora de Fátima, da Conceição e Santa Filomena. 

Mas a pernambucana, de Recife, confessa que a sua maior realização é promover anualmente junto a um pelotão de outros voluntários do bairro, a Festa do Dia das Crianças, para cerca de 1,2 mil pequenos moradores. “Corremos atrás de donativos, para todas ganharem seus brinquedos”, diz, já avisando que vai apelar à mídia, para ajuda-los na divulgação.

Ao perguntar para ela, se todas essas atividades não a deixam cansada, a resposta é rápida. “Não tem dia para ajudar”. E agora, ela partiu para mais uma jornada. “Prestei vestibular e estou cursando o primeiro ano de serviço social. Esse era o meu sonho, depois de ter terminado o ensino médio no ano passado. Quero aprender muitas coisas na área de assistência, que às vezes, faço errado, por desconhecer a maneira correta”, afirma, ao mostrar à reportagem as apostilas e cadernos em estado impecável.

De paciente a voluntária
Nunca é tarde para descobrir o voluntariado. Essa é a tese defendida pela alagoana Genilda Maria da Silva, que mora no Sítio dos Vianas, em Santo André. Aos 55 anos, descobriu que o “gostinho” de ser iniciante é gratificante. O caminho para chegar a ser uma das mais novas voluntárias do CHM (Centro Hospitalar Municipal), há dois meses, foi o de paciente. 

No dia 6 de agosto do ano passado, a dona-de-casa passou mal na rua, e teve parada respiratória. “Eu sou hipertensa, mas não tomava o medicamento de forma correta. Do PA da Vila Luzita, fui entubada para o CHM, onde permaneci por 10 dias, por causa de um infarte”, conta.

A partir daí, sua vida mudou. “Senti a necessidade de ajudar os outros. Vi que era pouca gente para trabalhar. Às vezes, via a dificuldade dos profissionais darem comida e medicamento para a gente. Daí coloquei em minha cabeça, a seguinte idéia: Quando eu sair daqui, vou ser voluntária”. A simpatia pelo voluntariado surgiu ao ver outros voluntários se revezarem para dar comida e trocar a roupa dos pacientes.

“Quem não quer ser bem tratado? Muita gente não tem familiar. A família de muitos pacientes é o voluntário. Não entramos por recompensa. No primeiro dia de voluntariado no CHM, eu me senti como uma criança recebendo um brinquedo novo. Ali a gente aprende a viver e ver a necessidade dos outros”, considera Genilda.

Para a dona-de-casa, levar um paciente em cadeira de rodas para tirar Raio-X ou ir simplesmente chamar um acompanhante, a reconforta. “No momento de enfermidade, as pessoas sofrem mais. O que mais me deixa emocionada é a luta das pessoas de idade em viver”, afirma.

Faltar nos dois dias que presta voluntariado, nem pensar. “É uma responsabilidade, só não vou ao hospital, se estiver doente. É um trabalho em que a gente aprende a se desapegar do egoísmo”, conta ela. E o entusiasmo de Genilda já gerou frutos. A filha Adriana, 29 anos, começou a participar do curso para acompanhar gestantes antes do parto, no próprio hospital. Mas essa é uma outra história...

Caso as narrativas das duas voluntárias tenham chamado sua atenção, confira alguns sites para saber mais sobre o tema:

www.filantropia.org
www.portaldosvoluntarios.org.br/site/ 
www.voluntarios.com.br 
 


 
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